sábado, 24 de agosto de 2019

tudo que tenho eu dou
e não sobra nada pra mim
mas sobra pra quem quiser 
 
eu sou uma carne viva e deliciosa
posta pra quem quiser se deliciar
 
quero o prazer de ser comido e comer
com garfo faca e colher
 
tudo que sou eu dou
e sobra pra mim 
e pra quem quiser
 
eu sou carne viva e deliciosa
posta pra quem quiser se deliciar

quarta-feira, 17 de abril de 2019

utopia do presente

se eu fosse surfista
eu pegaria todas as ondas

mas qual onda eu pegaria?

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Eu procuro entender o que o céu quer me dizer
Quando trovoa
Mas é só o céu e seus relampeios de clareza
Ou vislumbre

Enquanto em alto-mar piscam os navios na sua ordem aleatória e com pouco sentido, significando o que tentam significar

E ainda acho que significo tentando esclarecer o deslumbre

Entre o imóvel e o real se estabelece o indescrito e a escuridão eterna e bastante certa

Entre o que não se tenta e o que não pode ser
Vive o esquecimento e o prazer

quarta-feira, 27 de maio de 2015

mosaico


só sei acertar
depois de errar
está certo
quem quiser estar
será certo
quem quiser ser

não é o som
que tem cor
é a luz
que tem som

a beleza está
no inevitável
que é o presente
eu posso estar certo
como posso estar errado

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

teorizar sobre a vida é mais fácil do que sobre a morte (as coisas não são o que elas foram)

Esse poema trata da vida, da consciência humana, da autorrealização e do choque do ser com o mundo. Também fala sobre a poesia e a compreensão: tudo que é dito ao longo do poema está compactado no último verso, que ainda acrescenta novos significados a tudo que foi apresentado anteriormente, e tudo que se fala significa muito mais do que aparenta se nos permitimos captar e sentir todos os significados que há no pensamento e na comunicação — tanto da expressão humana, quanto dos fenômenos da natureza.

Eu sei o que preciso para viver uma vida bem vivida
E posso lutar pelo que preciso
Se não, sei que posso me aprimorar para poder lutar
E isso inclui a minha força de vontade

Sei que alguns imprevistos aparecerão no caminho
E sei que posso superar qualquer percalço de cabeça erguida
Mesmo que em certos momentos
Isso pareça impossível

Sei que uma vida bem vivida não depende só do que eu sei


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

mesmo sendo um pouco impreciso

um poema que fala sobre tudo*
do micro sensível intocável
às maiores dores cósmicas
ultrapassando o ser humano
sem sair por todo de si

pensamentos que desfaçam o atributo
do ultra insensível abstrato possível
ou de rochosas constatações orgânicas

um poema naturalmente complexo,
e simplório por essência ou impressão:



pé na cabeça
e mão no chão

só de as coisas serem o que elas são
já é algo maravilhoso

compreensão

de todos eus

para todos eus



*tudo se refere a todas as coisas, humanos, animais e metafísica (ou natureza)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

o caráter oco do coco

à superstição
o que se permite
é o que se possibilita
existir e acreditar

e assim se copia
à imagem e semelhança
a todo tipo de crença
toda possibilidade de crer
e de acreditar na existência

tal como é todo tipo de pensamento:
apenas uma maneira de se ver morrendo
e pensando

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

está certo quem quiser estar

não há espírito - tudo de nós está no outro

as certezas são temporárias

e tendo em vista que o tempo é insignificante perante o universo

não há certeza alguma

terça-feira, 29 de outubro de 2013

presente

de sonhos ocultos
o tempo se fez futuro

(é o tempo a vigília)

se de sonhos vivo
eterno sempre fui

sábado, 24 de agosto de 2013

#18

eu estava de costas
e meu primeiro passo pra frente
foi pra trás

terça-feira, 13 de agosto de 2013

#2

Estou pensando tudo que você está falando
E ouvindo muitas coisas

#1

Estou me poluindo de cidade no meio da floresta

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

futuro

minha visão não passa dos muros
a velocidade dos carros passando
cercas e luzes amarelas
a memória de agora há pouco já se foi há muito
estou ancorado nessa terra
o tempo é o presente
presente demais

escuto o silvo dos murros
cataratas através do copo americano
onde já se vai o amor intenso e obscuro
de longas e longínquas eras

eu amo o mundo
o amor intenso e obscuro
que tenho por todas as coisas

domingo, 5 de agosto de 2012

derréve

coragem demais é afronta
é como suicídio sem janta

uma vez me acordaram de madrugada
perguntando "pronde cê vai"

pronde cê vai pronde cê vai

lembro que eu escutava a montezuma
e corria molente
minha única resposta era
"num tenho coragem nenhuma!"

desde então só confio em quem inda cora
isso que é coragem

sexta-feira, 27 de abril de 2012

os monstros

derramam piedade sobre tudo
e todos
igníloquos cambaleando na rua bamba
riem desesperadamente
afagando em receio, mero medo d'uma mordida

e em recíproca têm as blandícias
e gratuitamente choram loucos
e loucamente choram gratuitos

domingo, 29 de janeiro de 2012

--

abandone
enquanto passeia a mão nos lençois amassados

reapareça
repleta de abraços confusos

por fim negue
até um trago de cerveja congelada

e nunca mais apareça

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

swimming in the rain

quando chover
fazer nada
                      e nadar na chuva

sábado, 14 de janeiro de 2012

high cai #2

o vício na vida
me levará à morte
um dia

— VIVA!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

foi, foi

a gente olha pra trás o tempo todo
e até dá uma piscadela, de vez em quando

o balanço balança no ritmo da embriaguez
e por isso a gente não para uma só vez

só de vez em quando — c'uma breve piscadela

sábado, 19 de novembro de 2011

high cai

tô amando tudo
odiando muito
tudo

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

puertita

bafinho quente no ouvido
e mãos passeando o corpinho inteiro

dizem: te quiero

domingo, 14 de agosto de 2011

cheiro de carne (poesia mal passada)

volúpias redondinhas
uns beijos destilados
e intervalos de dúvida

(o segredo da paixão em anacoluto)

mulheres: de duas em duas
cervejas incontáveis

o resto já se sabe -- é orgasmo mal gozado

quinta-feira, 9 de junho de 2011

só quatro metades fazem um inteiro

um belo dia de verão combina com semáforos apagados e bélicas nuvens ao som da lua movendo a vaguidão.
e é quando nós ficamos simplesmente sem saber se ir, voltar ou fechar os olhos durante o beijo gelado da cerveja, adiantaria para silenciar aquela música que soa tão tenebrosa na escuridão. me disseram que não, certa vez, mas eu: "mudar de ideia não é algo tão ruim quando na hora errada", e vazei (deixando a gorjeta dela e do garçom: dois cigarros e duas cédulas amassadas). doravante será tudo sempre mais ou menos nada. meio nada e meio tudo. fui a pé pra casa.

sábado, 28 de maio de 2011

mais uma outra vez

Ei-la deitada classicamente
e o violão de novo ausente
mas as pernas aguardavam estendidas

desta vez um prelúdio convidativo
substituía o jazz convencional
e o ballet (sem cordas) se fez visceral

terça-feira, 17 de maio de 2011

abandonando um bocado de coisas

Esmagarei meu cérebro
Destroçarei o vosso
E farei uma deliciosa sopa
De molho cefalorraquidiano

Só assim poderemos enfim
nos deleitar plenamente

terça-feira, 26 de abril de 2011

nariz escorrido (corre neguinho)

corra, meu filho
leve um casaco
não leia as placas
desapareça na névoa
perca-se de vista
passe ao meu lado
não me veja
mas beije Mnemosyne
admoeste-a e finalmente perceba
que tudo é passado
inclusive o Fim
depois volte
e me veja morta
sem começo nem meio
pois este não é nosso destino
mas apenas um sim
próximo a ser ultrapassado
corra, meu filho.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

abraço e adeus

deslize pelo bigode
e beije meu umbigo
me defenestre
mas não me cuspa na cara

honestidade sempre
é uma farsa e lembre-se
tome bastante cuidado
com minha testa suada

domingo, 3 de abril de 2011

tergiversos

maldita madrugada
que mesmo meio escondida
expõe tudo, escondidinha
debaixo das cobertas...

diluindo amores
em preto e branco
diluindo tesão
divagação e desvario

é... mas um dia,
quem sabe, se desdobrará
pra mim e me dirá,
escondida, quem sabe

dissimulada e quietinha,
à meia-luz, à meia-voz,
que lá vem o sol
e não me deseja mais

segunda-feira, 21 de março de 2011

lembrancinha

foi no dia em que fiquei invisível
não havia sons
nem palavras
muito menos gestos
apenas ladrilhos se movendo
uniformemente

e disfarcei tudo
com aquele velho sorriso azulado:
esqueci a filosofia de uma vez por todas

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

débeis papéis de guardanapos

todo dia me aperfeiçoo
diminuindo minha existência
me açoitando dia e noite
sendo o meu maior vício,
me açoitando, cinzento

mas com frequência
outros provam de mim
conselhos, opiniões,
palavrões e também
sêmen e saliva e sermões

E quase sempre se satisfazem

(às vezes também permito
aos cinzeiros e aos bueiros
provarem o que se provou)

louvados sejam os cigarros
e as cervejas
que sempre quase me satisfazem

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

isso é romantismo, meu amor

Preciso me derreter todinho por ti
Afundar-me em ti
Ultrapassar o risinho cínico
E te sentir íntima
Mínima
E te sentir finita
Espelhar teu olhar pungente
Afundar em ti
E derramar-me todinho em ti

Quero te decepcionar
E me satisfazer, meu amor

sábado, 15 de janeiro de 2011

O DIABO SOU EU

Por todos é sabido
O quão errado é dividir
As coisas em certo e errado
E em deus e diabo
Afinal o diabo sou eu
E errar é o meu fardo

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

PORNOPOESIA AMOROSA PARA LANGUIDÍSSIMOS ROMÂNTICOS ou Poema ao pornô de cada dia

Quantas gozadas às custas daqueles grandíssimos lábios?! 

Grandes lábios que lhe encrespavam o cu moreno. E que cu meu Deus! 


Cu que me encarava firme, eu a jantar-lhe a vizinha da frente. 


E assim subia, encarava seu sinal que por vezes me trazia asco e noutras gozo pleno. 


Ânus 50, quantas saudades! 

Quantas quase-mortes tive as custas de nossas transas, puxava-me alguém do lado de lá 

com saudades de minhas fodas. 

GOZO ENTÃO DE VEZ ANTES QUE O BRAÇO - POSTO QUE SÓ UM ME FAZ GOZAR - MORRA ANTES DE MIM!






boro

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Ressonância recorrente

Estar vivo é isso
Se acordar
Sem ter
Realmente dormido

Concordar de tudo
O dia todo cabisbaixo
E depois tomar
Duas doses de cicuta
Antes de se deitar

Mas se lembrar
D'antes resolver aquela insônia
Com leves tacadas
De sinuca na cabeça
E um tiro esquivo no saco

Estar vivo é isso
Dormir
Sem ter
Realmente acordado

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

pluviometrificação

    Maria acordava cedo sempre e descia a ladeira correndo. Chovendo escorregava e levava tudo consigo: flores caminhos amálgama de pétalas lama vida e maria.
    João acordava tarde todo dia e subia degraus escorregadios. Às vezes cansado caía no vigésimo quinto e dormia perdido pensando em Maria.

    (joão e maria diferentes em tudo
    comum apenas o escorregão
    e a maria).

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nove cervejas ou J. S. Bach

E nada.

Só as coxas dela
E eu apalpando-as.

E nada mais.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

puto tranquilo (fingindo serenidade)

acordei hoje e joguei
o ventilador pela janela
acordei e joguei o copo
de cerveja na privada

joguei o maço de
cigarros goelabaixo
joguei cigarros
acesos goelabaixo

acordei e mijei
fora da privada
acordei e me joguei
pela janela


sempre puto tranquilo

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

vestidos vertidos & vertigem

(...) e abro as
asas e deito bem
alto até o naviozinho
virar mais um pontinho

um pelinho de barba malfeita
caído na cama curtíssima
onde só cabia
Ela

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

À MIL

Quero distribuir
Pro mundo inteiro

Essa angústia seca
Assim sentirão

Quão maravilhoso pode ser
O gozo salgado da derrota

Saltando das órbitas
Engolindo-nos à sós

Devastando o mar
Do espelho, da pia

Do piso, privada
Água do banheiro

Socando a barriga
e a cabeça

Pela miopia translúcida
Quase dando pra ver

O grito d'um gole
desesperado

Vomitar e cair
sobre os restos

Depois se levantar
e se orgulhar

De angústia
ainda não ter morrido

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

gárgulas, vampiros & abraços

nem todo fogo
ondulante
gárgula petrificada
pela vontade

concreto o rubro
sangue escorrente
olhos de vampiro
ou de medusa?

olhos correntes
turbilhão veneno
como se retribui
o beijo d'um vampiro?

injusto remédio
quando a pedra
se quebra o vampiro
em amor cego se despede:

"até breve!", e voa por aí...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

(no qual se cofia o bigode)

nem as explosões no céu
os estalos no jazz
as bombas atômicas
os peidos na cama

nem os ébrios passos
de boêmios sem rumo
nem o estalo da garrafa
o primeiro break do jazz

nem os aplausos desnecessários
os tapinhas nas costas
as bombas atômicas
os raios solares

nem o tapa na cara
o chute no saco
o coco na praia
os patos no descampado

nem tudo que há de bom
nem a barra de espaço
a virilha coçando
nem o despertador quebrado

nem belos passos
pequenos écarts
ou a brasa e o violão
quebrados de tanto tocar

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

nostradamus remoendo e triturando ideias

aquela música
o silêncio ao longe
aquele poema
toda indiferença aquém
de tudo

o que agora
é nada
e que foi tudo

e continua
sendo

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Suas tetas

tristeza extensa
riacho que deságua
intermitência
suas tetas

toda esságua
pra quê
se pra mim não mais
as tenho?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

maiakovski

MANHÃ
O CÉU
AMANHESOL
SEM SLOGAN
O SOL
E EU

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

cotidiano

esse papel higiênico
que não limpa porra nenhuma
e não tira a merda do meu cu
impuro cada vez menos
no papel apenas nomes
letras e versos num alfabeto inútil
melhor seria olhar o papel e ver merda
e olhar a privada e ver poesia
(em puros versos de escatologia)

-less

Queria mais grafite
só escrevo, nada faço
e agora aqui
coçando o saco
nunca lá
apesar
de todo o grafite gasto

Esperança morreu
faz tempo
e se era a última
que mais tenho?

— Nada o que preciso:
grafite, tempo
espaço


(Tenho tudo que preciso:
grafite espaço-tempo)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Secura poética & d'outras cousas

Se poesia for isso
de escrever sobre o poetar
esqueço e faço meu conceito
nada de protopoema
ou metapoesia
sou o próprio poeteiro
em todos os sentidos

Se a poesia for isso
de escrever sobre o poetar
eu me renego
sem mais
nem tu
nem bar
poeteiro não há

Se poesia for isso
de escrever sobre o poetar
eu me renego a mim mesmo
e passo a em ti morar
com todos seus eus
e todos os meus

Se poesia for isso
de escrever sobre o poetar
tudo isso é mentira
(mas nunca foi
e nunca mais será)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Confabulando moralizações

Um coco na praia pensa
e com asas voa defeca
lindos cocos verdes
e dulcíssimos
que recaem sobre coqueiros
não muito saborosos

coqueiros são assim como o mar
quando menos se espera
estão lá

domingo, 15 de agosto de 2010

eu sou meu réu

sons na sala
sou eu
ou é a chuva
ou é o Quê
escuro na sala
ou é o céu
ou sou eu?

céu na sala
apaguei meu sol
no cinzeiro
céu na sala
apaguei o sol
mas quem sou eu?

sábado, 17 de julho de 2010

)

a porta abriu e eu entrei
atravessei a porta aberta
coração na mão desesperado
pensando apesar em desaparecer
mas atravessei a porta aberta
aliás por dentro eu estava
aberto de portas abertas
eu abri e a porta entrou
atravessamos a porta aberta
eu e a porta pensando em desaparecer
por dentro estávamos abertos
e fechados hermeticamente
categoricamente imperativos
abertos mas fechando
é melhor correr antes que
EXPLODAMOS

quarta-feira, 30 de junho de 2010

(

quartinho minúsculo
uma cama ridícula
a porta entreaberta:
                   
                    um silêncio absoluto

segunda-feira, 28 de junho de 2010

doce ou salgado

como um algodão
flutuando no ar
sem me incomodar
em ser ou não

quarta-feira, 23 de junho de 2010

duas partes de uma história só

balloons
balloons in the sky
oh, the sky
oh, the balloons

bolas
bolas no meu saco
ai, meu saco
ai, minhas bolas

quinta-feira, 17 de junho de 2010

teimei

t e m i a m o r t e
t e a m e i m o r
m o r r e u t e m o r
m o r r e u a m o r

a m o r t e r m i n a d o
a m a r t e i m e i
t e r n a m o r i m a d o
a m o r t e a m e i

segunda-feira, 24 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Piedade

Escrevi um poema e o pus no bolso.
Pus no bolso
No seu cu dó.
Escrevi um poema e o pus no bolso
Pus no bolso
No seu cu dó



—Boro (eu acordei e um de nós estava chorando)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Os gumes da faca

Nem a chuva lá fora era capaz de lavar sua mente dos acontecimentos da noite anterior. Não deveria importar, era só mais um a menos. Talvez fosse o olhar indiferente, que não sentia medo, dor, nem sentiria nunca. Era o que parecia. Esquecê-lo é o que devo fazer, indo à janela a fim de, se se sentisse, tentar reproduzir aquele olhar castanho e indiferente. Não conseguiu. Lembrou-se dos cabelos grisalhos por trás da testa lisa e pálida. Nem suada estava, como pode? Não tremeu nem gemeu quando a faca atravessou sua barriga; pelo contrário, eu é que sentia seus olhos me perfurando, lenta e gravemente, enquanto morria. Eu ou ele? Acho que morri àquela noite também. Matei-o enquanto morríamos. Mas já estávamos mortos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

tal vez

a cor dei
sem ti
sua falta

a cor dei
a cor perdi
e a dor recebi

a cor dei
e adormeci

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Vicissitudinário

A melodia do silêncio
me inundou os olhos
e pude ver a sua presença
(através do caleidoscópio congelante
que são os olhos meus)
exalando a linda melodia
do amor

Deslizou dramaticamente
como vulto maravilhoso
mirando-me pungentemente
e eu, tolo, a desviar
o olhar sem parar
mas sem parar de olhar

O suor frio tresmalhando-se
entre os pelos
misturando-se às lágrimas quentes
que paralizavam freneticamente
meus movimentos

(Acreditar e não acreditar
na sua presença
eram a mesma coisa
e não eram
ao mesmo tempo)

Sentindo a branca presença
negra às minhas tristes mãos
pensei não haver razão
para te amar
ou te ver
ou te ouvir
ou te sentir

Uma obsessão sem sentido
desvairada louca sórdida
incessante abrupta
sem sentido sem sentido...

Paramos, enfim.
E mais uma vez pude ouvir
a melodia do silêncio
me inundar os olhos
e ver à sua presença
a linda melodia
do amor

segunda-feira, 15 de março de 2010

.

Ao cair da tarde
Uma queda
Tropeçara em mim
O abismo humano

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Leve brisa na face

Vem d'uma vez

E vai se
Esvaindo

Vai-se...

E, indo-se, vem-se

E vem se
Evadindo

Vem-se...

Vindo e indo
cedes somente
Deveras saudade
Deixando a vontade

Distante...

De poder ter vontade
De te ver novamente

Mas não vens
Quando vens, se vais
Não me vês
Como deverias

Não a tenho como queria

E vai me
Esvaindo

E vai te
Evadindo

E, indo-te, vou-me

Vou-me embora
Podendo ou não ser pra Pasárgada
Tanto faz
Pois o que desejo mais
É o amor de outrora